O Magoo era um Labrador grande e brincalhão que muitas vezes se metia em alhadas. Normalmente, as suas traquinices era inofensivas. Mas um dia, ele  foi á despensa e conseguiu roubar uma caixa de uvas passas e comeu um quilo delas. Para além de ter ficado exasperado com o comportamento do Magoo os seus donos não pensaram mais nada acerca do assunto. Sabiam que muitas pessoas davam uvas aos seus cães como recompensas durante os treinos. Portanto não pensaram que seria necessário uma ida ao veterinário por esse motivo. De facto, se os donos do Magoo tivessem ligado para a ASPCA (centro de controlo de venenos para animais) há uns anos atrás eles teriam dito que não haveria problema nenhum.

 

Por volta de 1989, a APCC começou a notar um padrão em cães que tinham comido uvas ou uvas passas: Quase todos desenvolveram falha renal aguda. Á medida que mais casos foram reportados, começaram a existir dados suficientes para que os veterinários identificassem e tratassem os cães em risco. Em todos os casos, os ingredientes que provocavam a falha renal aguda eram os mesmos. Quer as uvas tenham sido compradas frescas de supermercados ou criadas em quintais não pareceria importar, nem a marca das mesmas. E as quantidades ingeridas variavam consideravelmente, desde 453 gramas até uma mão cheia de uvas. Os casos não eram de uma região específica, mas provinham de todo o lado.

 

Os dados mostravam que os cães que comiam uvas ou uvas passas tipicamente vomitavam umas horas após a ingestão. A maioria do tempo, uvas parcialmente ingeridas poderiam ser vistas no vómito ou nas fezes. A essa altura, alguns cães paravam de comer (anorexia) e desenvolveram diarreia. Os cães tornavam-se letárgicos e muito quietos e mostravam sinais de dores abdominais. Estes sinais clínicos poderiam durar vários dias – por vezes semanas.

 

Quando ajuda veterinária era procurada, os painéis de análise ao sangue mostravam padrões consistentes. Hipercalcemia (níveis elevados de cálcio no sangue) era frequente, tais como níveis elevados de nitrogénio na ureia do sangue, creatinina e fósforo (substâncias que reflectem as funções do rim). Estes químicos começaram a aumentar desde as 24h até vários dias após a ingestão da fruta pelos cães. À medida que a lesão do rim aumenta, os cães começavam a urinar muito pouco e quando paravam de urinar totalmente, morriam. Em alguns casos, mesmo cães que recebiam tratamento veterinário tinham que ser eutanaziados.

 

Porque é que a fruta fez com que os cães ficassem doentes? Ninguém sabe. Uvas e uvas passas foram estudadas para detecção de pesticidas, metais pesados (tais como zinco ou chumbo) e micro toxinas e até agora, todos os resultas vieram negativos. No caso das uvas que foram criadas em quintais privados, os donos confirmaram que não houve uso de insecticidas, fertilizantes ou substâncias fungicidas.

 

Apesar da verdadeira causa da falha renal provocada pelas uvas seja desconhecida, um cão que ingira uvas ou uvas passas pode ser tratado com sucesso. A primeira linha de defesa é a descontaminação. Induzir o vómito e administrar carvão activo ajuda a prevenir a absorção de potenciais tóxicas. Os cães deverão ser hospitalizados e colocados a soro por um mínimo de 48h. O veterinário deverá fazer análises ao sangue do cão por um mínimo de 3 dias após a ingestão da fruta. Se todas as análises ao sangue forem normais após esses 3 dias, é pouco provável que ocorra falha renal. Se um cão demonstrar sinais de falha renal, a administração de fluidos deverá continuar e outros medicamentos deverão ser usados para estimular a produção de urina. Alguns cães poderão precisar de diálise do peritónio (um processo através do qual o peritónio é usado para filtrar substâncias que são normalmente filtradas pelo rim).

 

Graças em parte à base de dados da AnTox, a ingestão de uvas e uvas passas pode ser facilmente identificada e tratada. Hoje em dia, um cão pode totalmente recuperar-se desta condição potencialmente fatal.

 

 

Dr. Means is a veterinary toxicologist at the ASPCA's Animal Poison Control Centre in Urbana, Illinois.

 

Reprinted from ASPCA Animal Watch, Summer 2002, Volume 22, Number 2, with permission from The American Society for the Prevention of Cruelty to Animals, 424 East 92nd Street, New York, NY 10128-6804.

 

 

 

 

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